caju com manga

des-apaixonar-se é melhor que apaixonar-se

Salvador-Dalí

 

feito raio: eu o reconheci, no meio de uma multidão de gente alcoolizada num pós happy hour coletivo.  ele vestia essa luz branca envolvente e calçava notas musicais – que lhe é tão peculiar. era quase verão e, naquela noite de quinta, meu coração se esvaziou de todas as dores pra ocupar um sentimento novo: o da paixão. aquela fora a minha segunda ocupação e garanto – não há nada parecido. é alegria, só que mais. é êxtase, só que mais. é um querer saber tudo, só que mais. é um vasculhar a internet inteira, só que mais… e um desejo louco – muito louco –  de passar na rua dele, tropeçar na frente dele, cair diante dele.

todas as tentivas de tropeços e quedas resultaram num encontro, pouco mais de 30 dias depois. e chegar perto, tocar a luz branca, ouvir o gargalhar, seguir o ritmo dos sapatos dançantes, afagar seus soluços fora algo parecido com o adentrar ao paraíso: eu caí e ele me deu a mão e me levou pro quintal, pra brincar.

porque, né, é impossível disfarçar uma paixão. ela queima até que a bochecha cora. ela dói até que vira poesia dramática do Pessoa. e cantarola, feito a música do Chico. faz a gente sofrer que nem a família do Fabiano, de Vidas Secas. vira inseto kafkaniano: ininteligível.

e essa mistura muito maluca de gente colorida-extasiada-dramático-deprimente-quefalapeloscotovelos só faz é deixar vulnerável se a droga da faísca não atingir o ser apaixonante ao mesmo tempo e na mesma hora – a hora de cronos – danou-se.

é obvio que ele se foi – niguém aguenta um ser apaixonado sem estar apaixonado também.  se foi e levou consigo todo o castelo construído por mim. castelinho de areia, num prato de gelatina, diga-se de passagem.  não havia nada concreto, a não ser a minha convicção infantil de que ele seria o homem da minha vida. aquele que iria me salvar de mim mesma e me trazer o vento fresco da primavera.  eu sei, soa bobo, mas me parece necessário confessar as minhas bobices.

justo eu, tão forte e poderosona, a dona da porra toda, de quatro, rasgando nota de 100 e passando estrume na cara. justo eu….

meio ano se deu, em tempo cronológico, o que equivale a uma vida, no kairós. meio século até o nosso novo encontro de lábios. a luz, a branca, se foi. tem outras nuances, agora, muito mais vivas, contrastantes e quentes: é luz outonal. o menino cresceu e amadureceu.  Ora, desapaixonar-se foi ainda mais lindo que o apaixonar-se: já não há espaço para a posse, pois ninguém é meu, não há espaço para o completar-se –  já não existe aqui ninguém incompleto.  não há espaço para o apego. agora, é só amor. é só amar.

 

 

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