caju com manga

Chega de tortura.

Hoje eu dirigi 100km. Mentira, 150. Errei o caminho, na saída de Calahorra, e andei 50km na direção contrária – fruto da minha resiliência – quantas vezes mais eu preciso ir pelo caminho errado um tantão até decidir voltar atrás?

Fazia mais de cinco anos que eu não dirigia. Mas eu tenho amigos muito f…das. Que cuidam  amorosamente da Piolha, enquanto eu não estou (irmão e cunhada também são amigos). Que vão colocar comida e fazer cafuné nos bichos, sem nem exitar, que me acolhe em suas casas – e me tratam a pão, jamón e vinho, e amigos que me deixam o carro sem perguntar se eu desaprendi a dirigir ou não. Incrivelmente, a gente não esquece… Não esquece dos lugares que andou, nem das pessoas que conviveu, muito menos de como é que faz pra se estacionar um carro. Que lindo é o pensar – e todo mundo aí jogando confete só no sentir, caramba!

E eu, que nos últimos meses tenho querido abandonar minha fama de forte, tenho pedido um dengo pra todo o mundo que tava perto, tenho chorado e amado fragilmente, na esperança de receber um colinho gostoso, voltei a sentir orgulho da minha fortaleza. Porque, né, com esse montão de linha reta na fuça, é só ficar séria que o povo já pensa que sou carrancuda.

Acabou o dia. Consegui uma pensão de 30 conto – na caga…a – tá tudo ocupado por conta do festival de verduras do último fim de semana e amanhã tenho aula de novo.

É um hostel, do lado da Plaza de Toros. Estou cansada e não tenho vontade de passear pela cidade, só de descansar. Ouço gritos, conversas, risadas e muito cheiro de cigarro. Me enjoo. Resolvo dar uma volta e tomar um café, com amigos que vivem na cidade. Volto, reclamo da catinga de tabaco sujo do meu quarto “- está proibido fumar nos quartos”, responde a dona. “Mas depois que entram, já não podemos fazer nada”.

Como sinal de protesto, peço um remédio pra dor de cabeça. Tem jantar por 11 pilas. Fico. Menestra de Tudela + bochecha de boi + pão, vinho e água. Arroz doce e café. 11 pilas, eu disse. Ainda surpresa pelo jantar incrível que eu estou comendo, levanto o olhar: sou a única mulher do refeitório: há uma mesa com 4 homens na minha frente. Eles me olham sem parar e sorriem, com o canto da boca. Cochicham. Riem de novo. Fecho a cara. Aquela, reta. Sou uma fera, respondo, com meu olhar temível.

Há outra mesa com 2. Mais discretos. Olhares invasivos, só as vezes. Um senhor sozinho janta em paz – queria ser ele, penso. Uma mesa com muitos latinos à minha esquerda. Ouço, principalmente, sotaque dominicano. Alguém escuta música no seu celular – sem o fone. A folia ultrapassa qualquer limite de decibéis. Gritos, risadas, olhares fixos, gargalhada, palavrões. Falam da Manada – um grupo de homens que estuprou uma moça bêbada nas últimas festas de Pamplona e saíram  – quase- ilesos da justiça. Riem. Noto olhares –  subo a vista, antes enfiada no meu prato de verduras, e lhes encaro. Coloco meu queixo pra frente, não vou demonstrar que meu coração está tremendo de medo. Eles são 12, e daí? Penso na possibilidade de morte – menos mal que fiz um seguro pra Sofi, droga.

Termino meu jantar espaçadamente  e me levanto, esguia e compassos firmes, feito Rainha de Sabah, em direção ao meu quarto.

Ao chegar à porta, tem um cara. Um daqueles que me encarava e ria.

– Somos vizinhos, me diz – rindo.

– É

– Você está aqui à passeio?

– Tô.

Sinto minhas bochechas avermelharem e uma sensação de impotência feminina se apoderar de mim. Até quando a gente vai sentir medo dos homens? Até quando a gente vai ser coagida de andar livremente? Até quando eles vão nos subestimar? Penso: –  mulher, não dá mais – sai do papel de boa moça agora – ninguém vai te defender.

– Escuta aqui, e esse cheiro de cigarro, tá vindo daí? Podem parar de fumar imediatamente senão eu vou chamar a polícia, joder – solto um palavrão e bato a porta.

– Desculpa, senhora – escuto, enquanto chaveio a porta.

Respiro fundo. Definitivamente, acabou-se a temporada do choro.

 

 

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