caju com manga

A beleza das coisas não bonitas

Foto by Juan Grau

Já é tarde e insisto: a gente fotografa do mesmo jeito que vê. Não, não é a pose. Não é a paisagem. Não é o lugar. Não é a luz, nem a câmera, nem a técnica. É a gente. E nosso olhar poético – ou cético – pro mundo.

A beleza é facilmente reconhecida na harmonia da proporção áurea. Nos acordes “certinhos”. Nas cores refletidas depois chuva. Nas tardes ensolaradas. No esplendor da primavera. Num prato do Rubaiyat. Numa praia de areia fina e água cristalina…

O desafio é ver beleza na voz que desafina, nos rostos monótonos, nos acordes dissonantes, nas tardes diluviosas e PF’s compartilhados do centro da cidade. Ahhh, eu quero ver quem enxerga beleza na fome e na desgana em comer. Beleza nas águas paradas e lodosas, nas casas sem pintura e pessoas desdentadas. Quero a beleza das TPM’s e das cólicas. Da solidão, do desemprego e dos desamores. Quero ver achar beleza na traição, na maldição, no nó da garganta. Quero ver beleza na saudade – pelo viés de quem fica. De quem perde. De quem apanha. Do dono do pranto. Beleza na injúria, na tortura, nos injustiçados.

Quero só é ver, se acha beleza nas perguntas, nas chantagens, na feiura, nas cores opacas, na louça suja, na roupa amassada, na casa empoeirada, nas pessoas amargadas e na angústia das árvores desfolhadas.

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