Papo de Mãe

o nascimento da vulnerabilidade

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O fato da gente estar juntas sempre me vulnerabiliza – eu sei.

Seu nascimento se dá num outono de vento fresco, com aroma a castanhas assadas, na Cidade Condal. Dois meses antes sou despedida do meu emprego – sem contrato – por ter dor nas costas. O trabalho de parto se conclui em três dias e toda a dor – e medo – transforma-se em regozijo por ver seus olhos e conectar-me a eles.

Passa das 16:30h quando, aninhada aos meus braços, você “olfateia” meu peito e o suga, despertando em mim um mar de lágrimas e rio de colostro.

Os dias que se seguem são de glória e de dor, de alegria e melancolia, de paz e desassossego – gente, o que que é ser mãe, fala sério!??

Cê tem dois meses de vida e encontro trabalho de diarista. Claro que vou, por que não? Jacobo, Sandra, Samuel, Barbara e Pablo são as pessoas que me contratam pra limpar suas casas e não se opõem a que você me acompanhe. Paro, uma vez a cada quatro horas, pra dar-te o peito. Compenso as pausas e fico até mais tarde, óbvio. Nos intervalos você dorme, acorda e brinca com seu móbile, chocalho, brinca com as próprias mãos….

Na ida e na volta, zanzamos pela cidade, cada dia um bairro novo: metrô, ônibus, vitrines, cheiros, barulhos, Born, Santa Maria del Mar, becos do Bairro Chino, delícias do Eixampla, gostosuras do Mercat de Santa Caterina – Carmel – Boqueria – Parque Guell, Mediterrâneo, ahhhh o Mediterrâneo…

Assim acontece nestes onze anos: mochila nas costas, mapa nas mãos e… aventura! A gente viaja, come, dorme e passeia juntas. A gente briga, chora, reclama e gargalha juntas. A gente cozinha, lê, limpa, bagunça e faz cafuné juntas. A gente pega busão lotado, trem alagado, metrô abarrotado, uber quebrado e volta tarde da noite, juntas…

E tê-la aqui pertinho, todo dia, no salão e nas consultorias, me faz ver que um novo jeito de viver a maternidade é possível: sem abrir mão do trabalho – que a gente precisa comer, né?! – dá pra ter a cria por perto, não delegar a educação nem vender tempo de vida longe de quem a gente ama tanto…

Tá, eu sei, estar perto demais me deixa vulnerável – cê sabe todos os meus defeitos, caramba. Mas, ó, estar perto demais também me humaniza porque me tira toda a culpa e vergonha de não ser perfeita e de quebra, fica claro que eu faço tudo o que posso. Tudo mesmo.

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2 comentários em “o nascimento da vulnerabilidade

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