Papo de Véia

eu preciso dizer que te amo…

já faz vinte e dois anos e continuo com remorso…

tô fazendo o colegial, no américo. por pura falta de planejamento (e de grana) não continuei publicidade, no pentágono. faço magistério por não ver outra alternativa. ainda se fosse pra ser professora de historia, tudo bem… mas aula pra criança, parece que não rola. estou totalmente desmotivada, trabalho com o pai, na oficina de pinturas, por $ 25,00 por semana. o curso que eu quero vale $125,00, por mês. as contas simplesmente não fecham, ainda que a vó tenha aberto mão do dinheiro pra casa. fazer o quê, né?

a notícia cai feito bomba. é junho de 1995 e ele tem o pior diagnóstico que algum familiar meu pode imaginar: hiv positivo. pior, já desenvolveu aids e por isso, não pode mais estar entre os seus. vem pra casa da vó.

a nossa família é conservadora ao cubo. tudo levado a ferro e fogo. o dito pelo não dito. sangue no “zóio” mesmo. não está permitido falar palavrão, ver televisão, usar calça comprida ou cortar o cabelo. muito menos se expressar. mas a maior proibição de todas é, sem dúvida, não dar exemplo moral. o mais importante, mais importante de tudo mesmo é ser impecável, no sentido mais literal que essa palavra possa ter.

ele chega, a vó vai pro hospital. é muito preconceito junto, sabe? apesar de irmãos, nos comportamos como inimigos. ele fica escondido, por quase um mês, lá no quartinho.

o quartinho é, na verdade, dois cômodos gelados. já foi oficina de costura, moradia para vários parentes e inquilinos, nos tempos de glória. mas não recebe sol desde que a fábrica vizinha levantou um muro rente à nossa janela, impossibilitando qualquer um de viver ali. a vó não quer brigar por isso, acredita na justiça divina e o quartinho foi condenado à geladeira, pra sempre. o chão de cimento queimado, é vermelho – por ironia do destino. nos tempos jubilosos ele fora brilhante, lustrado com cera poliflor em pasta pela enceradeira que dava choque – feito sangue vivo. mas, agora, seu aspecto é opaco, como sangue seco, e o único perfume que paira no ar é o do lysoform, não seja que o vírus se enraíze pelas rachaduras presentes.

de novo, sem alternativa. de seis em seis horas, vamos, sara e eu, dar o azt na boca dele. dou meio de longe, tenho apvor de que sua língua roce meu dedo. tenho quinze anos e um medo danado de morrer. – eu te amo, meu tio, mas se eu lhe disser, será que você vai querer um abraço meu?

o pai vai dormir com ele. polaco também. só entro na hora do remédio, missão que me cai como luva, assim tenho motivos pra faltar à aula e deixar este ano sombrio no esquecimento.

as tias vêm logo cedo lavar a casa. esfregar as roupas. luvas. botas. e muita água sanitária. ah, e lysoform, maldito lysoform.

a tv, antes proibida, fora liberada. pra ele, claro. dia e noite, é com quem pode conversar. tem a opção de mudar de canal com um cabo da vassoura: a televisão que nos emprestam não tem controle remoto. ele não tem direito a se expressar, nem mesmo a se deixar ver. nós o condenamos ao quartinho.

numa dessas últimas noites em casa, digo, no quartinho, ousa sair de lá, imbuído pelo cheiro de bate-papo na cozinha. meu coração dispara. quer carinho, se sentir vivo. mas não dá… ninguém quer perder a vida num abraço caloroso.

hoje, no hospital, as lágrimas são desnecessárias mas eficazes. precisamos dizer “pros” outros que o amamos. pena que ele não soube disso.

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9 comentários em “eu preciso dizer que te amo…

  1. kely que tristeza que deu na alma lendo seu relato. Acompanhei de longe a ida dele. Só ficava sabendo por alto, porque era tão proibido. Verdade acontecer isto na nossa família na época foi uma bomba.
    Só ouvi dizer que seu pai era o que tinha mais coragem e cuidava.
    Muitas dores porcausa da nossa ignorância.
    Hoje lendo seu relato parece que vivi um pouquinho.
    Bojos.

    Curtido por 1 pessoa

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