Papo de Mãe

Aromas do amor…

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A minha memória olfativa foi também, minha maior aliada, sempre.

Através dela, cresci num conto maravilhoso onde passeava pelos campos de flores miúdas amarelas, com castelos medievais e vendedores de maçã do amor. Imaginava tudo isso sentava no degrau da entrada da cozinha, virada pra porta de vidro que, aberta, dava de frente pra uma montanha, naqueles anos, ainda não desmatada. Às vezes, não cabia todo mundo na mesa e, por isso, eu acabava ficando ali, no meu lugar de sonhar. Enquanto isso, os meus primos, que vinham todas as tardes de domingo pra casa da Vó, reduto de gente tagarela e sabichona, ficavam se espetando, rindo, conversando e disputando o último bolinho da travessa. Essas tardes tinham cheiro de café Pilão coado no coador, bolinho de polvilho frito na panela preta e madeira queimada (sempre tinha uma fogueira na frente de casa). Havia muito ruído: a gente falava, discutia e se amava, de um jeito todo nosso, tão peculiar dessa família melancólica, e, portanto, controladora, com tanta dificuldade de expressar o amor que sente através das palavras… Só consegue amar mesmo é cozinhando.

Anos mais tarde, já no meu “autoexílio”, muitas vezes me peguei de olhos fechados, imaginando a cena e, do nada, vinha aquele cheiro “café-polvilho-fogo” pra dentro do peito, me acolhendo, me consolando. Percebi que isso acontecia quando a saudade apertava mas não havia nada ali, na Península Ibérica, que eu pudesse fazer pra “cheirar aquele cheiro”, o perfume de casa.

Era novembro, numa tarde de outono tipicaoutonomente navarra, com todas aquelas folhas que iam do amarelo ouro ao marrom profundo caídas no chão; o céu estava limpo, rajado de laranja e azul. O ar, frio e seco, batia no rosto, entrava pelo nariz e gelava a espinha. Deu saudade. Aquela. Da comida. Dos meus. Do calor humano. Do Polvilho. Da madeira queimada. Do Café. De casa.

Procurei, no infantil caderno de receitas, algo que me pudesse teletransportar…. Achei algo escrito com as letras rebuscadas de uma menina de 12 anos: “Bolo Nega Maluca”.

Em poucos minutos aquela poção mágica estava no forno e começou a exalar, por todos os cômodos do apartamento frio, o aroma mais deliciosamente aconchegante da face da Terra. Sim!!!! Senti que aquele cheiro me abraçava, me acalentava, me acariciava…. Era o cheiro de casa!

Desde então, todas as vezes que necessito sentir-me “em casa”, mesmo que eu já esteja nela, asso um bolo de chocolate. Não, não é o gosto do bolo, eu nem gosto tanto dele. É o cheiro. Esse perfume que inunda o coração e a alma de carinho e cafuné. A mesma sensação do bolinho de “porvio”, como dizia a vó, com café de coador.

Hoje, na volta do almoço, o Grilo Falante apertou e beijou a minha mão e me disse: hummm, que cheiro bom!! -Eu??? respondi.  -Uai, cheiro de quê?

– Não sei, é o seu cheiro, cheiro de mãe!! – respondeu.  Ela acabou ganhando uma apertada daquelas no meio da rua e eu, a doce lembrança das tardes domingueiras de Santo André.

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9 comentários em “Aromas do amor…

  1. Tem toda razão, Kellen…dá pra, estando em qualquer lugar, voltar sempre pra casa!!!
    (Memórias olfativas são colecionáveis!!! Amo tb)

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  2. Nossa …sem palavras…chorei de emoção ao recordar da casa da Vó…tu e boa em tudo o que faz,minha doce menina ❤

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