Papo de Mãe

Feliz Dia

 

– Eca…

– Hahahaha, mãe, você pisou no cocô, hahahahaha

– Sofia, não ria, pisar no cocô traz sorte.

– Aff, mãe, como você é inocente. Você não sabe que isso é mito?

– Sei – respondi por dentro.

A conversa se dá no percurso da nossa antiga casa pra escola, numa manhã apressada, antes de subir no ônibus lotado. No caminho, entre cotoveladas e empurrões, reflito no quanto estou ficando obsoleta, na visão da minha piolha. Ela já não acredita mais na minha varinha mágica invisível, nem nos meus poderes especiais de ler pensamentos. Muito menos acredita que falo a língua secreta do Chicó e por isso sei tudo o que ele deseja, como há um ano. As coisas mudaram: ou entro na linha ou a casa vai cair.

Em algum momento da vida, os nossos pais passam de ser heróis a anti-heróis (por um espaço limitado de tempo, já adianto aos desavisados). A gente acha que eles são maus pais. Que sabemos mais. Que não souberam viver a vida. Que faríamos e faremos melhor.

Por isso, falar que o amo, é balela. Conversa pra boi dormir. Mesmo. Eu não sei se a palavra certa é amor. Pelo menos se amor for aquilo que os filmes americanos vem tratando de nos enfiar goela abaixo já faz tempo.

Na dúvida, antes de divagar, recorro ao “Santo Google”:

Significado de Amor

1  Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração; grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa.
2  Sentimento intenso de atração entre duas pessoas.
3  Ligação afetiva com outrem, incluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual.
4  Ser que é amado.
5 Disposição dos afetos para querer ou fazer o bem a algo ou alguém.
6  Entusiasmo ou grande interesse por algo.
7  Coisa que é objeto desse entusiasmo ou interesse.
8  Qualidade do que é suave ou delicado.

Aha!! Na página do Aurério http://dicionariodoaurelio.com/amor tem 30 definições, embora seja no item 5 que eu me encontro: “Disposição dos afetos para querer ou fazer o bem a algo ou alguém”. É isso!!!! A gente só pode dar o que tem dentro. Custou pra entender, mas entendi. Não tem nada a ver com evolução espiritual, com eu ser a “boazinha” ou a babaca da vez, não! A gente só vai conseguir distribuir pros outros (sem importar se esse outro é uma classe social oprimida ou é seu pai, que não fez as coisas do jeito que você queria) aquilo que abunde em nosso ser.

A grande sacada é lembrar que somos espelho: ninguém faz nada sem que reflita em si mesmo. Talvez eu, que já sou “macaca véia”, já tenha percebido que, na vida, se você emana amor, recebe amor de volta, mesmo que esse amor “retornado” não seja da mesma espécie que você doou. Mas ele volta, ô se volta.

Como mãe, sinto um frio na espinha cada vez que penso no momento em que minha fã mirim descubra que sou uma fraude: nem tão segura, nem tão linda, nem tão legal, nem tão engraçada, nem tão esperta, nem tão sábia assim. Que muitas vezes, blefo, e como blefo.

Como filha, olho com olhos de gratidão por todo o aprendizado (inclusive aquele oriundo de como NÃO fazer as coisas) e enxergo que você fez tudo o que pôde, do seu jeito: admiro as suas qualidades. Os seus defeitos, meu velho, eu ignoro por puro egoísmo.

A gente não precisa de palavras. A gente se entende com o coração. Seja de mãe pra filha. Seja de filha pra pai.

Feliz dia.

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4 comentários em “Feliz Dia

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