caju com manga

quadrilha


entre o baile saltitante na panela do pipoqueiro e o aroma festeiro do outono em junho me pego te olhando e me vendo, eu também já tive dez anos. já falei isso aqui e repito: ser mãe é se reconciliar com a sua criança. a gente acaba tendo outra chance de viver a infância, de  se perdoar, se balançar na rede, jogar banco imobiliário, comer pipoca na festa junina sem culpa.

eu tenho 37 anos e nunca dancei a quadrilha – sempre ensaiava na escola mas, na festa, a vó não deixava a gente ir – era idolatria.

hoje, foi a primeira vez que vi (e percebi) uma dança completona, e a sua cara de satisfação, com as pintinhas no rosto, seu  vestido de caipira do ano passado, de mãos dadas com o seu colega, me fez voltar atrás: quantos dos meus coleguinhas me odiavam por ficar sem a parceira na quadrilha no dia da festa junina do valdomiro? eu tinha participado de todos os ensaios, pintado os desenhos que a dona palmira me dava, recortado as bandeirinhas coloridas, decorado e imaginado aquele céu pintadinho de balão, de “chegou a hora da fogueira”:

“Quando eu era pequenino
de pé no chão
eu cortava papel fino
pra fazer balão
e o balão ia subindo
para o azul da imensidão
hoje em dia meu destino
não vive em paz
o balão de papel fino
já não soube mais
o balão da ilusão
levou pedra e foi ao chão”

mas, na data marcada, simplesmente não aparecia. sumia. não dava satisfação…. tinha criado nele e em toda a sala a expectativa de que participaria da festança mas, no dia, não comparecia.

daí, quantas vezes esse padrão se repete? quantas vezes se ensaia, se coloca energia, se ilude, se sonha e, plim, no dia de colher o fruto do esforço, no dia de se brilhar e vibrar com os que estiveram ali, ombro a ombro, simplesmente a gente foge. não dá conta. arruma outro sonho, outro compromisso. alguém nos impede e a gente não luta. sei lá… acha que não merece tanto desfrutar. se autosabota, meu bem.

o cheiro da pipoca e o barulho da sanfona volta a me chamar: é hora de comprar canjica e milho verde. de viver o nunca antes vivido, como se fosse a última vez. e de vibrar. de viver leve e feliz, lindamente, o momento presente.

 

 

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