caju com manga

o mediterrâneo que vive em mim

 

mediterraneo

eu nunca entendi muito bem porque uma vez por mês tenho vontade de fugir. é um fugir pra não sei onde, nem de quem. imagino que tenho outra vida. uma vida ainda mais simples, cheiro de café que sai do coador e aconchego. a sensação é de recolhimento, de introspecção, aroma de amaciante na manta e garoa de silêncio.

nesses dias, todo ruído incomoda, toda dor grita, todo movimento irrita, toda cor é opaca. e o que há nada mais belo é um dia nublado com chá de rooibos, cardamomo, pimenta rosa, anis, cravo e canela.

penso numa casinha de madeira, com um canteiro de flores que contorna todo o quintal. nesse lar, tem muita vida. vida das de verdade: cheiro de feijão cozido saindo da panela de pressão, cachorro que late, minhoca na terra, carne de porco no forno com alecrim e maçã. tem vida, ahhh, e que vida….tão distante de todo o real, palpável… vida de fumaça cinza, de chuva, aroma de terra molhada e folha recém cortada.

todas os meses vivo essa vida, aqui, na minha cachola… logo há que se acordar, há tanto pra fazer. hoje é domingo e as visitas já se foram, a máquina foi consertada e já centrifugou a roupa, o chão está por limpar, o trabalho espera por mim ansiosamente… há um reboliço aqui fora, mas e dentro? quem vê a brisa suave que sopra em meu peito? quem enxerga esse mar mediterrâneo sem ondas que me acalma? esse pan tumaca que me alimenta a alma? esse passarinho que canta pra eu dormir? essa rede cor de abóbora que me nutre e acaricia.

tenho pensado tanto nisso: tudo o que a gente acha, é sobre a gente. não tem como saber nada do que passa na cabeça dos outros, gente. não tem! todo o nosso achismo tem a ver com o nosso próprio repertório, com os nossos valores, com a nossa fé, com as nossas crenças, com os nossos rótulos, tá entendendo? não tem um jeito só de cozinhar o frango. não tem um jeito certo… cada cultura desenvolveu o seu e que dádiva é aprender a cozer de outros jeitos, com outros temperos e outras panelas….

li no livro da Miranda Gray que os homens são mais lineares porque são regidos pelo sol. e nós, mulheres, somos cíclicas porque somos regidas pela lua. é um alívio não sentir mais culpa por, uma vez por mês, querer me recolher…

Anúncios

2 comentários em “o mediterrâneo que vive em mim

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s