Papo de Mãe

casa

às vezes dá uma vontade de fugir. é… fugir, fugir, mesmo. tipo, comprar uma passagem só de ida. pra um lugar remoto, claro, talvez mendigorria, onde alguns poucos vizinhos seriam suficientes pra avisar que vai chover – melhor tirar a roupa do varal, chica.

essa vontade sempre vem no outono. coincide com a queda das folhas que cumpriram seu ciclo, é hora de desapegar de tudo aquilo que já não nos pertence. porque a gente insiste que as coisas vão durar pra sempre, insiste em perpetuar aquele sorriso com prazo de validade vencido, como se não nos bastasse  um único instante de alegria intensa e amor profundo…

oras bolas, e não é verdade que a dor também é finita? que o coração, depois de muitos dias sangrando, forma uma casquinha fina que engrossa e cai, e deixa ali um tecido novo, brilhante, potente. daí,  recompõe todo seu líquido vital e volta a bombeá-lo para que caminhe veloz e oxigene todas as células do nosso corpo lindão.

é assim, meu bem… o ciclo da vida é música erudita, o canto mais doce, é pão assando no forno… é aroma que abraça a alma dos famintos de amor…

– mãe, quanto é 7×8 mesmo? – me assalta, de um súbito, a piolha.

volto o olhar pro seu caderno de delicadas linhas azuis com letras tortas feitas de grafite : – 56 – respondo. A playlist e a  manteiga molenga no pão me traz de volta à casa, aquela que mesmo sem paredes nem telhado é sólida,  acolhedora e muito real.

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