Papo Cabeça

o aqui e o agora

presente

“Quando meu amado morreu

abriu-se em meu peito esse buraco:

através dele arrancaram-me o coração

e colocaram o estranho maquinismo

que me mantém viva:

cheio de lâminas e pontas.

(A cada pulsação ele me corta

e me impele a viver.)”

O lado fatal. Lya Luft

Eu a abracei num abraço de conforto. Abraço mudo de troca de energia, de afeto e de consolo.

A Jolanda é a mulher mais interessante que eu já troquei algumas palavras. Do alto da sua melhor idade, diz, com todas as letras, que quem inventou essa merda não tinha o que fazer: “não tem nada de melhor nisso, minha filha”. Usa um moicano azul, num cabelo branco neve: “Se eu não parecer uma velha louca, meus alunos não me ouvirão – disse, certa vez. Mentira, é daquelas pessoas que dá vontade de ficar ouvindo, ouvindo, ouvindo e degustando o seu saber… Sempre tem uma sacada genial, uma petulância, um insulto provocante e desbravador de ideias pra quem quer que lhe cumprimente… Mas tem gentileza. Muita. Até no nome.

Beijei seu ombro e perguntei como ela estava: -Mal, minha filha.

Eu, que sou a pior pessoa para consolar alguém sobre a morte, só pude tocar a sua mão direita com os lábios e acariciá-la, como se , com esse gesto, a minha saliva sobre a sua pele massageasse a sua alma. Queria, nessa hora, poder dizer coisas lindas e emotivas, contar pra ela o quanto ele está melhor agora, descansando. Mentira. Não posso dizer coisas das quais não acredito.  Não há palavras nessa hora. Há sim,  que se aprofundar na dor em sua plenitude pra, só depois, sair flutuando nas ondas do deleite.

Talvez eu a convide pra um almoço qualquer dia desses. Usar minha panelinha de barro é o meu jeito de amar as pessoas, sabe? Porque a morte, minha querida, é a parte mais intrigante e interessante da existência. Fosse a vida infinita, teríamos tempo de fazer tudo o que se deseja. E várias vezes. De jeitos diferentes. Mas é a certeza do fim que nos leva a estabelecer prioridades. A viver o presente e planejar o futuro. Porque o passado, ninguém apaga. Mas o aqui e o agora, estão sendo escritos neste instante.

 

Te abraço.

 

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