Papo de Mãe

e se…

– mãe, do quê você mais tem saudades?

– como assim?

– do quê mais sente saudade da época em que vivíamos em Puente?

– ahhh, puts… do cheiro de pimentão assado no ar, acho. e você?

-tenho saudades de comer nozes debaixo do pé, lá no começo do caminho, com a Virgínea e o Mud. e dos figos colhidos na saída da escola. de ir na casa da Sarai e ver os “cabezudos”. da piscina do pueblo. daquela galletita de naranja…

daí por diante, cada uma falou de todas as coisas que vinham à cabeça sem se importar com a ordem prioritária da saudade… saudades do outono, dos castelos de verdade, do pão de trigo não sei das quantas, do cheiro de esterco no inverno, do parquinho depois da escola, das corridas no bosque, do cheiro das noites de verão, pão com tomate, sorvete em forma de foguete, escola, queijo de cabra, preço do vinho, visitas à Biarritz numa terça de abril, vento gelado na cara, saudades de sentir saudades de sampa, saudades de sentir saudades do cheiro de banho tomado com sabonete lux, saudades de sentir saudades de pamonha, de tapioca com queijo e de bolo de mandioca.

é, a vida é mesmo engraçada… uma vez migrante, a dor do “e se..” nunca mais lhe deixa. é um tal de “e se eu tivesse ficado”, ” e se eu não tivesse ido”, “e se não tivesse me mudado”, ” e se eu não tivesse vindo…”… são tantas possibilidades, tantas oportunidades pegas pelo chifre, tanta nostalgia daquilo que não se viveu, que seria possível nascer mil vezes e ter mil vidas e todas elas com escolhas diferentes… isso, escolhas!

porque ninguém se deu conta de que viver é movimento e é escolha, ainda que não se escolha?

hein?

oras bolas, não se pode ficar parado… só o movimento prevalece! até quando a gente morre a vida não para, e o corpo, que deixa de respirar, entra em movimento através da decomposição… Tampouco o nosso legado padece com o deixar de respirar.

…volto pra mesa do café. Estou pintando as bolinhas de número um e, você, as de número 2. a gente ainda não sabe o retrato de quem vai aparecer na imagem e essa construção, pontinho a pontinho, bolinha por bolinha, essa surpresa é o que faz deste momento algo, de fato, interessante. A única certeza é que escolhi pintar. Escolhi perguntar “e se…”. Decidi voltar. E essa, como todas as outras, foi a melhor escolha.

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6 comentários em “e se…

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