Papo de Véia

parabéns, pai

wp-1483964169913.jpgA primeira vez que eu lhe comprei um cartão de aniversário, me lembro bem, foi dia 09 de janeiro de 1989. Desci os 36 degraus da casa da vó, atravessei a rua e entrei na Francimar. Escolhi um que tinha escrito em letras cursivas e prateadas a palavra Parabéns, num fundo azul com um barquinho à deriva. Claro que, naquele momento, escolhi pela merreca que tinha mas mãos e pela cor, de homem. Mal sabia que tinha uma mensagem subliminar nesse cartãozinho mequetrefe.

Subi os degraus correndo, de dois em dois, sinal de uma pressa que me acompanharia pela adolescência e vida adulta, droga. Sempre invejei as pessoas que sobem degrau por degrau, step by step, mas nunca pude fazê-lo. Escolhi, dentro do meu estojo jeans encardido, minha melhor caneta bic e escrevi, em letras caprichosamente tortas o quanto meu amor por você era grande e todas as coisas boas que eu lhe desejava pra sempre, a vida inteira, forever, até o infinito.

Daí por diante, foi um tal de escrever declarações desastrosas, cartas de amor não correspondido, bilhetes mal interpretados, que nem vale a pena falar agora, já que dão causos pra mais um montão de vidas!

Mas a verdade é que, naquele momento, descobri que eu era melhor escrevendo do que falando porque meu cérebro anda mais devagar que a minha boca. Vira e mexe eu tenho que esperar a mente “atualizar” pra poder continuar o assunto. Meus amigos me chamam de lesada toda a vez que dou aquelas pausinhas na metade da conversa. Tenho sempre como desculpa o querer viver a vida a granel pra sentir o todo: aromas, ouvir, falar, degustar, tocar, tudo ao mesmo tempo. Na escrita, resolver isso é bem mais fácil, oras bolas, é voltar um parágrafo e retomar de onde havia parado. Mas no fundo eu admito, sou lesada mesmo.

Vinte e oito anos se passaram desde daquele primeiro cartão de aniversário. Muitas palavras de amor e raiva rolaram debaixo dessa ponte. Ditas e escritas. Pensadas e “despensadas” meia hora depois. Em terras ibéricas ouvi tanto que é melhor o mau conhecido que o bom por conhecer que acabei acreditando nessa porcaria de ditado.

Não, não dá pra mudar ninguém. Graças a Deus, né?!  Porque a gente mesmo muda tanto de ideia, o tempo todo que,  imagina ter esse poder ridículo de transformar as pessoas naquilo que queremos ser? Quando eu tinha nove anos era apaixonada pelo Fábio Júnior! Tudo bem que hoje em dia se eu ouvir, ainda que de longe, o tema “enrosca”, saio dançando no meio da rua com os braços ao vento. Mas agora, depois de ter conhecido o Dylan, a Nina, e o Drexler (<3) mudei de paixão, uai…  Ainda assim, o nosso repertório é tão minúsculo, tão excludente, tão pessoal porque diz respeito à gente mesmo, ao que vivemos, às nossas experiências e caminhos trilhados… tem a ver com o momento em que a gente tá, no aqui e no agora. Só se vê o que tá dentro dessa frestinha da janela… mas o universo, meu bem, é muito maior que isso… e as possibilidades, infinitas!

Hoje, o que eu lhe desejo é terra fértil, meu velho. Porque é no caminhar que a gente vai espalhando as sementes… se a terra tiver gostosa, fofinha, adubada e houver chuva, vai crescer um bosque lindão. Vai ter sombra fresca. Flores coloridas. Frutas doces. Depois, vai secar tudo. Passa um tempo, recomeça. Folhas verdes, flores, frutas de novo….

Chegar perto dos 40 tem isso de bom, já se sabe como funciona o ciclo da vida. O segredo (e mais difícil tarefa) é saber quais sementes a gente quer espalhar. Depois, é esperar o planeta girar e receber, daquilo que foi dado, cada coisa a seu tempo.

O Parabéns de hoje não tem brilho nem glamour. Não tem caneta bic e talvez nem haja abraço. Mas tem amor daqueles nus e crus. Sem delicadeza mas com muita gratidão. Porque viver 65 anos não é pra qualquer um: chegou a 3ª idade, yupiiii! Eu sou hoje fruto do que vivemos, há bem mais de 30 anos. E o melhor de tudo é saber que ainda há tempo pra semear…

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5 comentários em “parabéns, pai

  1. As declarações de amor, em cartões ou em blogues, são os presentes mais bonitos. (Sempre)
    “As pausinhas no meio da conversa”…bem, vou tomar a desculpa da “vida a granel” emprestada!!! (Vai ser a melhor desculpa)
    E que bom que o universo é imenso…por causa disso tem sido um imenso prazer ler seus textos!!! Eles são incríveis!!!

    Curtido por 1 pessoa

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