Papo de Véia

Sobre como a gente lembra das coisas

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Talvez, o que de verdade importe na vida, sejam as lembranças… Essas, as que a gente recria no pensamento… Porque, claro, as lembranças não são cópias fiéis de fatos ocorridos no passado… São situações que, apesar de já terem acontecido, estão adornadas de sentimentos, positivos ou negativos, dependendo do momento em que se lembra e da criatividade de quem as conta…

Me explico: quem nunca sofreu uma dor tão grande, capaz de dilacerar as entranhas que, depois alguns anos, foi lembrada com ternura por ter servido como crescimento pessoal?

Quem nunca fez algo de errado que parecia ser o fim do mundo e, depois de um tempo, relembrou os fatos à gargalhadas:  quando comparados aos que acontecem hoje, não passam de simples peraltices …  O passado é sempre adocicado pela nostalgia do tio do algodão doce: quase ninguém tinha duas garrafas pra trocar com ele o que o tornava um delicioso objeto de desejo…

Quando se está no olho do furacão, não há saída… Dá a sensação de que não se pode aguentar, que não haverá luz no fim do túnel, a gente só quer mesmo é fugir…  Impossível passar na prova, conquistar o coração daquele menino, comprar um sapato novo, pagar a excursão pro “Playcenter”, aguentar aquele chefe duro na queda… Até que vem o tempo e cura, acalma, enfraquece o sentimento intenso e abranda o coração…. Faz nascer flores onde haviam campos secos… Conserta tudo: a gente muda de curso, paga as contas e faz novas dívidas.  Conquista outras pessoas, viaja pra além do Oceano, troca de emprego, visita um brechó e sai feliz da vida…

Com o tempo, eu nunca sei se o que passou não era tão importante assim ou se é que no momento vivido, as emoções estavam tão à flor da pele que eu as levei à 10ª potência e prevaleceu o superlativo.

Foi assim quando eu tinha  5 anos e fui, escondida do pai, no circo. Tá, eu fui com a Valdelice, no bom e velho Goiás.  Passamos por detrás do carro dele abaixadas, de quatro. Foi umas das grandes emoções da minha vida:  ver o palhaço, o mágico, os bichos, comprar maçã do amor: tudo escondido!  O coração batia rápido, forte…  – E se ele chegar antes da gente?? – pensava.  – E se ele descobrir??  – temia.  Trinta segundos depois de deitar, escutei a maçaneta da porta abrir: era ele.  – Ufa, menti sob a forma de omissão pela primeira vez na vida. Pior, tive que conviver com isso por 31 anos, já que não tinha pra quem contar que (puxa!) fui ao circo escondido – e foi incrível.

Em 2012 fui pela segunda vez ao circo: era uma decadente trupe francesa que fazia uma turnê pelos pequenos povoados espanhóis.

Eu já era dona do meu nariz e, em tempos de Facebook,  não precisava omitir o ocorrido: mas o fiz. A sensação foi outra: não sei se pela crise europeia, o picadeiro, modesto, estava povoado por uma família composta por dois palhaços mulambentos e sem graça e dois malabaristas desequilibrados de fantasias remendadas. Talvez  o fato de já não ser proibido havia tirado o encanto do lugar.  Pode ser que fosse a minha solidão, ainda mal assimilada.  Não sei. Só sei que, de fato, já não fazia o menor sentido ver bichos treinados para entretenimento da criançada caipira da era digital. Não fazia sentido aquele cirquinho mequetrefe. Não fazia sentido não correr riscos ao entrar pela tenda, porque a vida, por si só, já fazia o coração bater depressa…

 

 

 

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