Papo de Véia

Paradoxos

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De uns anos para cá, sinto meu corpo envelhecer. Não, eu não estou falando só dos pés de galinha, da celulite e do metabolismo lento, não. Eu tô falando do todo. De querer dormir mais cedo, de preferir ficar em casa a sair, de gostar da própria companhia, de se aceitar e se amar porque sim. Eu tô falando de viver as estações do ano dentro de si e, conseguir se ouvir a ponto de saber o momento em que o organismo precisa de alegria ou de recolhimento. É isso. Não tenho vontade de estar mais jovem e ter 20 anos de novo. Nem um pingo. Meu maior bem material é uma rede no meio da sala: adoro, depois do jantar, deitar nela e desfrutar o presente.

Durante o tempo em que trabalhei no Horno, todos os dias, pontualmente às 10h, vinha um senhor, magro e esguio, de olhar bondoso. Seu pouco cabelo grisalho ficava debaixo de um boné azul marinho, sempre o mesmo. Diariamente com roupa esportiva, entrava com passos lentos, esperava a sua vez e, diferentemente dos seus conterrâneos, não me gritava “oie, chica”. Quase sem mexer os lábios, abria um singelo sorriso antes de me pedir um café com leite. E só. Parecia solitário, mas nunca triste. Pedia o Diário de Notícias, adoçava seu café com adoçante, e lia, página por página, a seção de política. Eu sempre o via entrar, mas nunca sair. Silenciosamente deixava a cafeteria, com a mesma austeridade que havia entrado.

Esse homem sempre me despertou curiosidade. Assim como outros poucos frequentadores do Horno, ele não se expunha, nunca puxava assunto:  nem falava, nem perguntava nada. As  pessoas silenciosas, tem em mim, uma grande admiradora. Sabe essa gente que vive alheia a tudo? Que anda de bege? Os que tem o cabelo sempre do mesmo comprimento.Os que pedem sempre a mesma bebida. Os que se sentam no mesmo lugar. Os que passam a vida no mesmo bairro, na mesma cidade. E vivem assim, discretas, silenciosas, falando o essencial. Essa gente que não mal gasta a sua energia vital. Isso me faz lembrar da Maria José, que foi minha colega de trabalho num hotel do Caminho de Santiago: bebia leite com café, todos os dias. Se vestia somente de preto. Trabalhava há 18 anos como “Lavadora de Pratos”, no mesmo lugar, na mesma pia, do mesmo hotel. Mas isso dá outro causo, porque ela falava demais, diferentemente do moço do causo de hoje.

Na minha última semana de trabalho no Horno, era fevereiro, nevava muito. Eu estava recolhendo as xícaras de uma mesa, quando chega o Juan, soube seu nome nesse dia. Ele me olhou, com olhos de bondade, abriu um sorriso que evidenciou suas rugas e esfregou as mãos, fazendo força para esquentá-las. Devolvi o sorriso e perguntei: café com leite?  – Sim, isso mesmo… Fiz sinal à minha colega na barra para que tirasse seu café e continuei retirando as louças.

– E a corrida, foi boa? – puxei assunto.

-Bueno… (resposta típica de quando a coisa é mais ou menos, no país de Dom Quijote).

-Que passou?  – perguntei.

– Na verdade, eu fui um pintor, sedentário e cardíaco. Nunca tinha ido a uma academia na vida. Até que me transplantaram um coração de um jovem de 20 anos. O resultado é que um coração jovem pulsando num corpo de velho me obriga a fazer duas horas dos exercícios que eu sempre odiei, diariamente. É pra gastar meu coração, sabe? Chova ou faça neve.

Sorrimos um ao outro, mas foi sorriso invertido, quase uma careta que dizia: fazer o quê, né?!

A Begonha colocou seu café na barra e eu lhe entreguei. Queria lhe dizer algo, mas começava a entrar mais gente fugindo do frio, e precisei atender as outras pessoas. Não o vi sair. Foi a última vez que o atendi, mas ele, nunca mais saiu da minha mente: tanta gente lutando pra rejuvenescer o corpo e, aquele homem, com a aparência de um velho sábio, precisava envelhecer seu coração.

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4 comentários em “Paradoxos

  1. Já falei que amo ler seus causos…Daria um bom livro, e com certeza seria uma das primeiras a comprar…Me sinto assim, ” , conseguir se ouvir a ponto de saber o momento em que o organismo precisa de alegria ou de recolhimento”… Belas palavras

    Curtido por 1 pessoa

    1. Linda… obrigada pelas palavras, por estar sempre tão pertinho de mim, ligada pelo coração. Somos todos irmãos e sentimos as mesmas emoções… essa é a beleza da vida! Beijos e lindo dia!!

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