Papo Cabeça

sobre as relações líquidas

 

 

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Uma das belezas do Caminho de Santiago é aguçar os sentidos pra perceber-se a si mesmo…. e, assim, perceber o outro. É lá, com um monte de gente de todas as partes do planeta, compartilhando a beliche com a senhora que ronca, o banheiro com o rapaz que tem chulé e a mesa com o equilibrista bêbado que se entende o sentido da vida… da sua vida!

Sim, porque afinal, não existe um só sentido pra vida, claro está… Cada um encontra o seu, mas o mais interessante do Caminho é ter tempo para estar em silêncio e ouvir as próprias batidas do coração. É ter tantas bolhas no pé a ponto de implorar pelas coisas mais básicas para um ser humano: abrigo, água, comida e descanso.

Peregrinos, portanto, são os melhores turistas do mundo: abrem um sorriso lindo nada mais te ver e te abraçam, sem perguntar se você é a garçonete ou a dona do local, eles carecem é de calor humano. À tardezinha, ocupam as mesas da calçada e se permitem ser felizes com um copo de cerveja e um bate papo com qualquer desconhecido.

Dizem que para fazer o Caminho, há de se estar um pouco louco. Pra viver do caminho, também. Porque ali sim, há uma grande quantidade desse amor líquido tão de moda nas palestras atuais: não há relação sólida no Caminho.

Os transeuntes são almas perdidas que passam pela sua vida e, sem se dar conta, deixam um pouquinho delas ao mesmo tempo que levam uma parte de ti nas suas pesadas mochilas. Talvez por isso sinto não ser mais a mesma… Quando me olho no espelho, vejo que as janelas da alma refletem a imagem de cada ser humano que passou por mim. E, por incrível que pareça, os amigos que fiz no Caminho, permanecem comigo, como se num passe de mágica, aquele lugar de viajantes instáveis, tivesse transformado as relações líquidas nas mais consistentes do mundo, em relações rochosas, diria. Claro, a gente só retêm aquilo que não amarra…

É o “estar caminhando” o responsável por baixar o volume dos ruídos de fora para se ouvir o silêncio da alma. Só depois disso que a gente se percebe e percebe o outro. E pára de enxergar os fracassos do coleguinha pra ver com olhos amorosos todas as suas virtudes.

Durante muito tempo, estive triste por deixar o Caminho. Pensava, erroneamente, que o lugar mágico era o próprio Caminho, que todas essas coisas só se dariam de novo se eu estivesse lá. Não havia percebido a maior lição de todas que Ele me deu: o encantamento está em fazer silêncio pra ouvir a alma falar e só assim, escutar o coração do outro. E isso, a gente pode fazer em qualquer lugar…

 

 

 

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3 comentários em “sobre as relações líquidas

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