Papo de Véia

Aromas surreais

IMG_20160103_170755572 (Carroça, de Remedios Varo)

Todo mundo que ficou em Sampa parece que teve a mesma idéia, ver a exposição Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, no Tomie. Fila até a Faria Lima.  Ahhh, que delícia ser detentora do tempo… posso esperar.

Pausa pra um tal café da cidade. Música folk, luzinhas no teto, atendimento impecável, café Illy: puts, que dia de sorte!

A música já trocou pra outra que não conheço mas não importa, o único ritmo que me prende agora é o da cafeteira. Pá pá pá, café velho fora. Zrummmm, o moedor expele o pó mágico com aroma do paraíso. Clac clac pim zummmm, esse barista realmente sabe tirar um bom café: encaixa, aperta o botão e pega a xícara pra receber minha bebida favorita. Espuma cremosa, cor de avelã… Explosão de aromas, sabor a nostagia…

Fecho os olhos e revivo minhas tardes pamplonesas de domingo na cafeteira do Horno, 48 cafés por minuto, ao estilo espanhol: – sólo con hielo, por favor. – Oie, chica, descafeinado con sacarina. – El mio con desnatada largo de café, cuando puedas. – Oie, maja, “ponme” un carajillo de Baileys. – Uno solo, “plis. – Hazme un cafe con leche de esos buenos que haces. – Con leche, majica…

Puff, a essa hora já havia entrado no fluxo. Me sentia levitar… Olhava de cima: todas as pessoas do balcão esperando e os cafés saindo um a um, como se se tratasse de uma fila de crianças, todos filhos meus, minha criação. Eu não podia ouvir nada, nem mesmo a Begonha queixando-se dos meus “latte art”:

– La madre que la parió, Kelen. Ya vale de tanta mariconada!

Eu concordava com ela, mas continuava com as frescuras no café por pura vaidade: amava olhar a cara de espanto dos clientes com as minhas folhas e corações feitos de ar e leite. Era a minha obra de arte, caramba!

Voltei. Trocou a música, o café esfriou, tomo o último gole. É hora de ir pra fila que tem cheiro de pipoca doce, vermelha, do mesmo tom dos quadros dessas mulheres fortes, incríveis mexicanas de nascimento ou de coração. Pipoca que vem do milho, domesticado pelos nativos da Mesoamérica há 12.000 anos. Viva México!

 

 

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7 comentários em “Aromas surreais

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