Papo de Véia

Causo de fim de ano

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Quem me conhece sabe o quanto eu valorizo as estações do ano. Especialmente quando se está num clima continental, na primavera, nascem borboletas saltitantes dentro do estômago da gente, só pra deixar tudo deliciosamente alegre. As flores,  parideiras de cor, embelezam os olhares que se cruzam e que, inevitavelmente, se apaixonam pela vida.  É essa a estação mais vistosa: a do recomeço.

Quando chega o vigor do verão, as feromonas, apressadas, transbordam pelos poros…. A vida se parece a um baile da terceira idade: ninguém mais tem pressa de voltar pra casa: já está tudo feito, é só desfrutar, dançar e desfrutar….

O outono, maduro, é a estação mais bonita pra uma dramática como eu: aquele friozinho acolhedor, os amarelos, vermelhos e marrons distribuídos pelo horizonte e o ato, que é, para mim, o mais sublime do gozo: o de despir-se. Cai a folha, cai a roupa, cai o conhecimento, cai a máscara, cai o paradigma, cai a gargalhada, caem as certezas: é hora de questionar, repensar…

Mas a estação mais importante de todas, a meu ver, é o inverno. É nele que  o essencial, de fato, acontece. Eu vi, muitas vezes, a árvore secar. Não ter nenhum verdinho nela pra contar a sua história e eu pensar:

– Acabou, não se recuperará… Nunca mais nascerá uma folha nesses galhos secos…

No entanto, a beleza do inverno não está permitida aos olhos insensatos dos distraídos. Não. A beleza do inverno consiste na paciência da gestante, seja da que gera uma semente, um feto, uma idéia, uma alma. É somente nesse período da vida que as coisas se transformam de verdade. É nessa dor, nessa espera, nessa angústia, nesse “não estou vendo nada de bom acontecer” que a semente, o feto, a idéia, a alma, cresce. Mas cresce debaixo da terra, onde ninguém vê. Cresce dentro da gente, sem ninguém perceber.

Sim, apesar da alegria boêmia do verão, é o inverno que me faz feliz, como se fosse um tango: é triste mas é bom, sabe?!

Esse ano foi incrível pra mim. A primavera e o verão vieram cheios de mudanças, novidades, compromissos, expectativas, promessas, flores, amores e muitas cores… Só que eles vieram no outono. Nem deu tempo de cair folha nenhuma e chegou o meu glacial inverno: duro, cruel e seco. Do dia pra noite, perdas. Esse inverno teve aroma de sabonete lux, sabor a lágrimas e textura de abraço de despedida. Teve prisões de corpos e de dinheiro. Teve desprezo e intolerância. Mas também teve liberdade de alma. Esse inverno teve desentendimento com gente querida que nem sabe quanto o é. Talvez, nunca saiba. Teve peso e desespero. Foi desproporcionalmente longo, como nenhuma outra estação. Até que enfim,  teve seu ciclo encerrado.

Pronto, nasceu uma folhinha verde. Nasceu a esperança do recomeço. As borboletas voltaram a povoar o estômago: é hora de novos projetos, novas risadas, é hora de de desfrutar de uma cesta de piquenique debaixo do ipê amarelo.

Obrigada, 2015. Você foi incrível!

 

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Um comentário em “Causo de fim de ano

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