Papo de Salão

Causo de rua

 

Morador de rua

 

Minha relação com o cabelo começou cedo…  aos 3 anos, implorando, aos prantos, pra que a mãe não o desembaraçasse, ela me respondeu:

– Foi o Saci quem passou por aqui essa noite e fez vários nozinhos. O Saci Pererê é muito arteiro mesmo….

Trinta e dois anos se passaram e eu estive a ponto de reproduzir esse discurso pro meu “cliente”, sentado sob uma árvore da Praça Princesa Isabel.  Craqueiro, morador de rua, 17 anos, com o cabelo desgrenhado e fedido, pedindo um corte que se resumia a: “passa a ‘zero’ dos lados e a ‘um’ em cima”

Qual o seu nome?- perguntei.

(silêncio)

– Alexandre, mentiu pra mim e baixou o olhar.

– Vamos passar a ‘um’ dos lados e a ‘dois’ em cima? –  propus.

– Não, quero bem baixinho porque depois vou jogar o cabelo pro lado…

– ???

Inacreditavelmente, finalizado o corte, ele passou 7 minutos molhando o cabelo com o borrifador e penteando para o lado, com toda a paciência que somente um metrosexual teria. Não importava que ele estava descalço e sem dinheiro, sujo e sem camisa.  Estava se achando bonito, fazendo cara de “Vadinho” enquanto se penteava na frente do espelho que o japonês segurava.   Viu os pelinhos da barba refletidos e pediu: – Tira pra mim?

– Qual seu nome?

– Pedro Paulo.

– Olha! Que nome bonito. O que o senhor quer fazer?

– Passa a zero.

– Obedeci aquele homem franzino, com cara de sessentão, que tinha cheiro de gente que não toma banho há muito tempo. Cocô, xixi e álcool, era esse o “bouquet”.

– O senhor é carioca? –  puxei assunto.

– Sou de Resende. Vim trabalhar num desmanche. O negócio faliu e eu nunca mais consegui voltar. Mas tenho muitas saudades das minhas filhas –  falou. Os olhinhos caídos brilharam…

O movimento migratório é algo que me fascina e, uma vez emigrante, a gente sempre vê no imigrante um irmão, um amigo, um igual…

– E porque o senhor não volta pra junto delas?

Ele se olhou. E contestou o discurso ensaiado:

– Não sei como voltar. Não sei o caminho de volta. Não sei chegar na rodoviária, não sei…  – e balançava a cabeça. E olhava para o nada…

E não sabia mesmo. Aquele homem, que na verdade tinha 42 anos, estava perdido. E é bem provável que, se voltasse do jeito que estava, seria rejeitado. Quem vai querer um pai cheirando a urina? E ele sabia disso. Sua sua única certeza era a de que estava fora dos padrões de bom pai e bom marido.

Esse foi um, mas atendi a vários. A mesma faixa etária. Homens saudáveis, bonitos e perdidos. Quase todos com filhos. Um deles, ex morador do Jardim do Estádio, bairro pertinho do que eu cresci. Saiu da cadeia há dois meses:

– Porque não vai pra perto do seu filho, de 9 anos?  – perguntei, com a minha cara de pau ainda mais aguçada pelo anonimato e a cumplicidade por ser mãe de uma menina com a mesma idade.

– Porque não posso. Estão atrás de mim…

Aquele homem, também de 42 anos, com traços retos e fortes, cabelo preto e abundante, cheirava a sabonete lux, o mesmo da cadeia que o pai ficou, há 4 meses.

– Puxa, o senhor é da rua mesmo?

– Tomo banho no albergue. Eu estou na rua mas não sou dela.

– Oi. Tudo bem? Qual é o seu nome?

– Allan. Obrigada por “melhorar” a nossa  autoestima. Tenho 24 anos. Minha família tem lanchonete. Eles sempre vêm me buscar na praça mas eu fujo deles. Ainda não sei como voltar pra casa. Eu trabalhava na Etna, ganhava quase $ 2.000, você conhece a Etna?  – desembestou.

– Sim!

– Pois é… Larguei tudo por causa da bebida. Mas eu quero minha vida de volta. Aqui na rua é f…a. – Me dizia isso ao mesmo tempo em que sua pálpebra fechava, olhos vermelhos e sonolentos. Tinha passado a noite acordado, me contou.

– Volta, menino. Se você quer, claro. Precisa ver onde se sente melhor… E essa aliança no dedo? Você é casado?

– Sou. Ela vive aqui comigo. Largou tudo pra ficar comigo aqui na rua. Largou tudo… – repetia.

– Sééééééério???

– Sério!

– Puxa, Allan, essa é a história de amor mais linda que eu já ouvi. Ela te ama de verdade… Porque as histórias que eu estou acostumada a ouvir é de que nada é suficiente…. Pras pessoas ficarem juntas precisam de tantas coisas… Tantos “poréns”… Você é um homem de sorte: A sua família vem te buscar na praça. A sua mulher vem viver na praça…. com você. Por você.

O japonês passou o espelho nessa hora. Ele o afastou, não sei se pela imagem que viu refletida não coincidir com a imagem que tinha de si mesmo ou se foi pra esconder a lagriminha que rolava. Fingi que não vi e continuei o meu trabalho.

Foram 83 pessoas distribuídas a 6 cabeleireiros naquela manhã de domingo.

Muitas histórias. Muitas escolhas. Muito desamor. Muito amor do lado avesso.

Ninguém ali era bonzinho. Todos com histórias de violência, autossabotagem, drogas, cadeia, gente…

Eu pensei nos filhos, que não vêem o pai há muito tempo. Eu pensei nas mulheres, criando os filhos desses homens “fugitivos”. Eu pensei nesses homens que, diariamente, tem os seus sonhos frustrados. Ali, não passavam de lindos seres humanos, cheios de magia e encanto. Que sorriram, na maior parte das vezes, das minhas piadas sem graça.

Naquele dia, os nozinhos do Saci foram atirados juntinho com alguns dos meus paradigmas, direto pro latão do lixo.

 

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7 comentários em “Causo de rua

  1. Amo ler seus causos, interessante,deveria ser publicado em uma coluna de jornal,um pouco do mundo real,que muitos fingem não existir…Belo exemplo a ser seguido,ajudar o proximo e relatar sua experiencia…Aplausos para voce…bjuss no ❤

    Curtido por 2 pessoas

  2. Incrível ação… Parabéns!! O melhor da auto-estima é ser ouvido com a alma..A sua alma. Estou muito emocionada pela coragem. Nesse dia vc colocou cor e ação nos sonhos dessas pessoas ..#orgulho

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