Papo de Véia

Suspiro

suspiro

Eu não sou a filha favorita do pai mas posso me “gabar” dizendo que fui a que mais o conheci. Passamos muitas horas de silêncio, juntos. Longos dias e noites, viajando em buggys, chevettes e passates, tomando banho e comendo na estrada, com os caminhoneiros. Talvez daí venha a minha paixão pelos Trailers.  Horas a fio de estradas esburacadas em silêncio. Ninguém consegue  imaginar o pai calado. Mas eu já vi, juro.

A viagem, de Santo André a Caxias do Sul num buggy amarelo, afirmo, não é a das mais confortáveis. O pai prendeu as “janelas” de plástico nos botões de pressão, mas o vento passava, mesmo assim, pelas frestas. E gelava a minha cara, bagunçava o meu cabelo. Eu ia sentada no banco da frente, na posição que eu mais gostava, com os pés pro alto. No caminho, a dança dos pingos da chuva na lona intercalava os compassos do K7 que tocava Milionário e José Rico. Dependendo da música, rolava alguma lágrima no rosto do pai. Eu fingia que não via. E justificava seu mau humor na sua tristeza.

A viagem de um dia, pra mim, durava um ano. Não tinha nada que distraísse as crianças de 5 anos naquela época: eram tempos sem ipad, iphone, ipod, nem nenhuma outra tecnologia de distração infantil. Mas no carro do pai também não tinham gibis, nem livros, nem lápis de cor, nem canetinha, nem lanchinho se tivesse fome, nem  nada. Só um rolo de papel higiênico cor de rosa no porta luvas vazado. Então, só restava pensar. Imaginar. Passar horas a fio criando diálogos com personagens que só viviam na minha cabeça. Sinto informar que minhas histórias eram sempre trágicas e, no final de cada uma, eu suspirava.

Essa foi uma das muitas viagens que fizemos durante quase dois anos, desde a partida da mamãe até que eu entrasse no prezinho. Dessa, a parte mais gostosa foi chegar na casa da tia Cléia e ser recebida com uma fornada de suspiros quentinhos. Ela os colocou num pote de vidro, encima do aparador que eu fiquei olhando por alguns minutos, impressionada como aquele doce duro podia se dissolver no céu da boca e descer a garganta como  se estivesse num escorregador mágico de arco íris, culminando numa nuvem fofinha de algodão doce.

A tia cuidou de mim, todos os dias. Me dava banho e me secava com a toalha fofinha da Suelen. Me ensinou a jogar Resta Um. No terceiro dia  (até que enfim) conseguiu desembaraçar meu cabelo e me senti a mais amada das crianças. Suspirei.

Até hoje, quando vejo um suspiro, desses caseiros, me derreto no escorregador mágico. Me teletransporto à doçura que alguém pode dar a um ser humano em miniatura e transformar a sua vida para sempre. Suspiro.

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4 comentários em “Suspiro

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