Papo de Véia

O dia em que decidi ser leoa

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Em 84 fui morar em Santo André, com a vó. De todas as novidades, a que mais me chamou a atenção foi a força daquela mulher que me cuidaria por 14 anos.

Lá nos fundos, antes de fecharem o quartinho com o muro, a gente tinha o mundo inteiro como quintal de casa. Havia um tanque, bem perto da porta e o resto era um terrenão delimitado por uma cerquinha de madeira  onde eu passava meus dias fazendo comidinha de barro com minhocas, caçando joaninhas, pisando em formigueiros e comendo trevos. Ahh, e pra desespero da vó, enterrando todas as colherinhas que eu encontrava na gaveta.

A gente morava na parte mais alta da cidade. Ao anoitecer, se podia ver a cidade inteirinha acesa, um mar  de luizinhas  debaixo dos olhos… Era de encher o coração de felicidade.

A única coisa que ainda me intrigava era a força daquela mulher que passava os dias cuidando do Ju. E de mim.

Ela era mandona, com uma voz nem aguda nem grave, no ponto certo pra saber que se você não fizesse o que ela estava pedindo, a coisa podia ficar feia.

Às quintas, ela pegava o fusca e ia na granja, lá no Cata Preta. Voltava sempre com dois frangos amarrados pelos pés, de cabeça pra baixo. Subia os mais de 40 degraus da escada antiga, sem corrimão nem nada, com uma mão segurando os frangos e o cheiro verde e a outra segurando a chave do fusquinha e se apoiando na muretinha da casa do Seu Sergio. Pra equilibrar o corpo opulento, graúdo e roliço, colocava a pastinha com os documentos e o talão de cheques Bradesco debaixo do braço direito. Era a sua “borsa”.

Nessa hora, ela me mandava entrar. Eu sempre obedecia, a voz dela impunha respeito. Mas teve uma vez que espiei. Entendi o porque dos frangos desaparecerem, sempre. Aquela cena ficou gravada por muito tempo na minha mente. A coragem  daquela mulher, também.

Na recessão, ela levantava às 4h pra ir pra fila do Bim, esperar pra comprar o saquinho de leite que nos era permitido comprar. Eram tempos de crise.  Muitas vezes, a gente acordava e ela ainda não tinha voltado. Íamos os dois pra janela, eu e o Ju, mirávamos a boca pro Bar do Ciço que ainda não era bar e gritávamos: ô vóóó, quero mamaaaar!!!!

É claro que quando o fusquinha chegava e ela subia o primeiro degrau da escadaria, a intensidade do choro e da fome aumentava proporcionalmente, pra fazer ela andar ligeiro. Mas não tinha jeito, ela subia os degraus lentamente, um a um, suspirando. Seu jeito de subir a escada era a metáfora da sua própria vida.

O fato é que só decidi que queria parecer-me a ela, no dia que faltou o gás. Era bem cedinho e estávamos nós dois chorando de fome, outra vez na janela. Quando a vi subindo a escada com o botijão de gás nas costas, debaixo de um toró daqueles, entendi que não havia nada que aquela mulher não pudesse fazer. Ela era brava sim. E corajosa também. Mas, sobretudo, ela possuia a força de uma leoa.

E foi assim que eu decidi que quando eu crescesse, também queria ser leoa, que nem a vó.

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8 comentários em “O dia em que decidi ser leoa

  1. Aí meu Deus viajei num tempo que.não volta mais só lembranças que nos fã chorar, obrigada minha prima amada querida por proporcionar essas histórias tão verdadeiras que um dia passamos com nossa querida Vozinha que hoje vejo que ela era como a Floresta Amazônica, forte, imponente,nada o abalava .Chorei…

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  2. Saudades , das tardes ,das noites em que iamos na vó tomar café, e ouvir vc tocar piano…e tão prazeroso ler o seu blog historias tão reais…Um exemplo de mulher …querida vó Dora

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  3. Nossa como ela conseguiu? Uma vez tentei erguer um botijão de gás cheio e não subiu mais que a barriga. Tua vó colocou nas costas, que incrível, que forte ela, nossa…

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