Papo de Véia

A mãe que não me pariu.

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Por muito tempo me senti uma pobre vítima das circunstâncias. O meu egoísmo fazia com que cada vez que um obstáculo aparecia, eu achava que aquilo só estava acontecendo porque minha mãe não estava ali. A bolha em que eu cresci submersa era tão espessa que eu não conseguia ver a quantidade de “mães” que estiveram sempre ao meu lado, prontas para me dar lições de vida, úteis pro resto dela.

O “coitadismo” é, talvez, o pior inimigo da autoestima. Uma vez que a gente se sente vítima de algo, não se abre para novas experiências e aprendizados com gente diferente. E perde o que o ser humano tem de melhor, a espontaneidade. Ninguém deseja estar ao lado de sofredores e nem de melindrosos. Quem deveria, acaba não fazendo as críticas construtivas necessárias para o crescimento, só pra evitar a fadiga. Todo mundo prefere conviver com as pessoas mais leves e o chatos vão ficando de lado, condenados a não evoluir, fazer o quê, né Darwin?!

Resulta que a Vó, que foi minha mãe adotiva, nunca se posicionou como tal. Sempre fez questão de ficar no lugar de avó mesmo e teve medo de me dizer as verdades que só uma mãe consegue falar na cara da filha, sem dó nem piedade: “você está gorda, não pode comer mais uma barra de chocolate”. “Vai estudar, isso não é negociável”.  “É assim que se guarda a roupa no armário” “Vá escovar esses dentes direito, menina!” “Deixa eu ver essa orelha cheia de cera?”  “O arroz se faz assim, ó”. O peito de frango, se passa do ponto de cozimento, fica borrachudo” “Vamos guardar 10% de todo o dinheiro que receber, desde sempre.” “Você precisa amar as pessoas incondicionalmente, todo mundo tem defeitos…”

Não sei porque, mas a vó tinha medo de me ensinar a mecânica da coisa e me tratava como neta mesmo: eu obedecia as regras de funcionamento da casa mas participava muito pouco da gestão dela. Aliás, a única coisa que me traumatiza até hoje é  a resposta (na verdade eram duas) a todas as tentativas de participação doméstica que eu recebi 100% das vezes: -Você não sabe nem por onde galinha “mija”, menina. -Quem fala demais, dá bom dia a cavalo.

E foi na minha terapia do Velho Mundo, que mães européias, que nem me adotaram, nem me pariram, fizeram o papel drástico de progenitora.

Eu já tinha 28 anos quando aprendi a dobrar lençol de elástico com perfeição. Foi a Dona Nina que me ensinou. Empresária da hotelaria, era uma mulher alta, esguia, com uma intelectualidade artística acentuada e emoções controladas. Seu comportamento e traços remetia ao perfeccionismo, à melancolia. Ela era extremamente delicada, elegante e séria, tudo na mesma proporção.

Numa tarde fria do final do outono navarro, num dos últimos dias antes do hotel fechar para as férias coletivas,  ela me viu recolhendo a roupa de cama do varal  do seu Relais & Chateaux, atirando as peças desajeitadamente pela janela. Fui interrompida pela voz mais suave que já ouvi em toda a minha vida:

-O que está fazendo? – perguntou.

-Recolhendo a roupa – disse.

-Você está amassando a roupa. Não é assim que se faz. Você deve recolher a roupa e unir as pontas, com esmero, acomodando-as uma encima da outra. Assim, perderá menos tempo na hora de passar. E os lençóis de elástico, se dobram assim, ó.  – E me mostrou, com seus braços pálidos, longos e finos, a destreza de uma habilidosa empregada doméstica.

Eu, deslocada e chateada por ter sido pega de surpresa num erro grotesco, fiquei notavelmente triste. E ela continuou:

-Isso eu aprendi com a minha mãe. A sua não te ensinou?

Senti um calor subindo do estômago e deixando meu rosto todo vermelho, feito fogo. Eu não queria me expor e dizer: não, eu não tive mãe, porque era mentira, eu tive sim! Mas a vó, achando que não podia se colocar no lugar de mãe, me ensinou a ser trabalhadora e honesta, mas não a dobrar lençóis. Eu queria responder isso pra Dona Nina, mas abri a boca e minhas palavras foram mudas. Ela virou e se foi, não tinha tempo de ouvir qualquer explicação.

Naquele momento percebi o quanto as justificativas não têm sentido. Comecei a olhar pra trás e ver quantas “mães” passaram pela minha vida, me dando truques para sobreviver no ambiente doméstico (e fora dele também) sem que fosse coisa do outro mundo: mulheres riojanas, navarras, catalanas e madrileñas, que me ensinaram valiosas receitas da cozinha mediterrânea, a delícia de se reciclar alimentos, roupas e objetos; a fazer economia doméstica, o prazer da educação infantil, a praticidade da administração do lar e o mais importante: me mostraram que saber cuidar das próprias coisas faz parte da rotina de toda casa inteligente e pode ser uma atividade muito prazerosa também. Mãe (madrasta, avó, tia ou quem esteja no lugar de), deve dar carinho e amor sim, mas se ama de verdade seus filhos, é melhor passar tudo o que sabe pra eles, assim, como se estivessem numa escola da vida, pra virar tradição mesmo.

O papel de mãe não deveria ser delegado pra escola ou pra babá. Porque ser mãe é muito mais interessante que qualquer comercial de margarina.

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9 comentários em “A mãe que não me pariu.

  1. Prima quero feliz de te conhecer um pouquinho más! Amei o jeito como escreve . Porfavor não pare.
    Venha mais para indaiatuba ! Bjssss💝

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  2. Tenho certeza que onde ela estiver terá muito orgulho de ter uma filha maravilhosa como vc
    Sucesso linda vc merece

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