Papo de Véia

Lições de rua

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Afinal, o medo alheio é sempre mais bobo que o nosso.

Quando eu era pequena, morria de medo do escuro. Como era a irmã mais velha, fechar o portão sempre sobrava pra mim. Só que a casa da Vó era bem no alto do morro, com muita neblina vinda da Serra do Mar e umas escadarias de 36 degraus. Tinha uma lâmpada no final da escada, que virava e mexia ficava queimada até o Sr. Juvenato poder trocar pra gente.

-Vó, fica me olhando pela janela?? E ela ficava. Eu sabia, que com o seu super-olhar-protetor nenhuma assombração em forma de fumaça poderia me alcançar. E eu subia correndo, de dois em dois degraus, bem ligero pro “coisa ruim” não me alcançar.

Mas se o pai estava em casa, a coisa mudava. -Ninguém vai te olhar da janela, não existe assombração nenhuma- dizia. Ele, que era tão crente, de repente virava cético por demais!! E lá ia eu, às vezes com lágrima nos olhos, coração disparado, vento na cara e frio no estômago, fechar aquele maldito portão assombrado. Ia devagarinho, dissimulando, pro meu medo achar que tava “tudo dominado”, que eu já não o temia. Olhava de rabo de olho, virava delicadamente a chave da porta de aço, dava três passos largos, trancava a segunda porta e aí sim, dava passos triplos, que era pra subir ligeiro, não podia dar bobeira pro azar – pensava.

Acontece que o pai tinha mesmo esse jeitão de ensinar a gente meio grosseiro, ” a lo bruto”, descobri, anos mais tarde, no Velho Mundo. Queria enfiar na nossa cabeça que o medo é covarde, se for enfrentado de frente, ele corre da gente. Achava que se me fizesse passar ao lado de um esbravejante cachorro raivoso, amarrado e faminto que tentava alcançar desesperadamente as minhas canelinhas, eu perderia o medo dele. Ô meu Deus, de infarto, eu sei que não morro!!!

Anos mais tarde, os medos que meu “véio” não conseguiu tirar de mim, a vida o fez. Pior, utilizando a mesma metodologia! Sem o olhar protetor da Vó, a solidão é bem mais assombrosa que a neblina do ABC e a fumaça que entra pela garganta, tem tentáculos asfixiantes. De novo, coração disparado, frio glacial no estômago. Parece que a gente treme, mas é por dentro. Demora um tempo até entender que é preciso ter coragem para fazer o medo do escuro ir cantar em outra freguesia.

E foi num desses momentos que aprendi que os cachorros não precisavam ser temidos por mim. Numa época de perdas, num país distante, sem trabalho nem grana e com uma filha pra criar, apareceu a Lili, pra me “salvar” do sufoco: – Se der banho nos cachorros que eu faço a tosa, te pago “deizão”por bicho! Tive que topar. E, uma semana depois, o medo fugiu. Sem ele, a certeza de que o que não se aprende em casa, é aprendido na rua.

PS.: O Grilo Falante está com medo de tomar banho. Diz que vai sair um tubarão do cano para devorá-lo. Eu ri e levei uma bronca:  – Mãe, você não me leva a sério!!! Não deveria rir dos meus medos…

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7 comentários em “Lições de rua

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